A influência das crenças no pensamento crítico

 

Quando iniciei minha pesquisa sobre pensamento crítico, de imediato me surgiu inúmeros autores abordando o tema. Meu primeiro movimento foi pensar, intuitivamente, qual deles estaria certo. Em quem eu deveria acreditar? Quem estava mais próximo da “verdade” que seria o mais correto seguir? Afinal, em alguns casos, as diferenças nas definições dos conceitos e nas técnicas utilizadas para desenvolver o pensamento crítico eram significativas.

Entretanto, após um tempo pesquisando e lendo alguns desses autores, tão diversos, um ponto em comum era transversal a todos – as crenças. Nesse momento, minha dúvida inicial (“em quem eu deveria acreditar?”) começou a me incomodar e dúvidas sobre como eu estava pensando surgiram. Porque eu deveria acreditar em apenas um autor? Estariam todos corretos, cada um a sua maneira? Existiria, então, mais de uma forma de compreender e desenvolver o pensamento crítico? Seria essa uma crença inicial minha de que a verdade estaria mais “correta”, e talvez “escondida”, em alguma reflexão “divina” de um desses autores?

Comecei, então, a fazer um movimento diferente. De que forma poderia compreender melhor essas questões? Qual era o entendimento que eu tinha sobre o pensamento crítico e que percebo que houve mudanças após a leitura inicial desses autores? Falaremos mais sobre esse movimento de questionar adiante, mas para o momento, é necessário focar numa das conclusões iniciais a esses questionamentos: o que eu buscava inicialmente era alguém para acreditar, que me trouxesse a verdade; estava em busca de uma crença. E como dito anteriormente, a crença era um tema transversal em todos os autores. Nada mais restava a não ser me debruçar sobre “crenças” – desta vez me dando a liberdade de construir meu próprio entendimento sobre o tema. Decidi começar por uma técnica muito útil ao desenvolvimento do pensamento crítico: pesquisando sobre a origem (linguística; conceitual; histórica) do que se pretende compreender.

 

Crenças, convicções e autoexperiência

O conceito de crença pode ser definido de diferentes formas a depender do autor e da época que se utiliza como referência. Vamos, então, procurar compreender o sentido original da palavra, para poder compreender a essência do termo em todas essas concepções diferentes atribuídas ao longo do tempo. A origem do termo “crença” é uma combinação do verbo latim “credĕre” que significa “acreditar”, do qual possui duas raízes indo-europeias em “kerd”, em referência ao coração, e em “dhē”, que refere a colocar; completado com o sufixo -encia do latim -ntia, como qualidade. Portanto, pode-se dizer que ao falar sobre crenças estamos falando sobre "colocar o coração em algo”.

Toda crença, sejam elas racionais, irracionais, disfuncionais, religiosas, etc., presume uma atitude proposicional - a disposição subjetiva de alguém em admitir a veracidade ou falsidade de certa proposição -, sem passar pela real comprovação única para a consciência, que é a autocomprovação pela experiência - autoexperiência[1]. Assim, a crença presume a “fé”, a admissão de uma proposição produzida pelo outro, dentro da ótica atribuída, acreditando (e consequentemente tendo a expectativa de) que a proposição em questão “é” ou “deve ser” exatamente como proposto pelo outro com base no vínculo emocional (ao “se colocar o coração” nessa proposição). A prova suficiente está no que o outro produziu, e não pelo que eu constatei pela autoexperiência[2]. O que eu penso sobre o outro enviesa o que eu vou crer como prova suficiente. Acabamos acreditando em muita coisa que não nos cabe quando o outro é alguém aclamado (amado, querido, importante, autoridade, personalidade, etc.), e deixando de analisar outras tantas que poderiam ser muito pró-evolutivas se vierem de alguém que não gostamos.

É através da autoexperiência que as crenças se transformam em convicções. Para seguirmos nessa jornada, é necessário aprofundar um pouco o entendimento do que é convicção e o que é autoexperiência.

Para compreender o que é uma convicção – e consequentemente a diferença entre crença e convicção -, precisamos também olhar para sua origem. O termo "convicção" vem do latim “convictio”, que significa "prova" ou "refutação". Este termo, por sua vez, deriva de “convincere”, que quer dizer "vencer" ou "superar decisivamente". Diferente da crença, a admissão da veracidade ou falsidade das proposições deve passar necessariamente pelo crivo da razão, movimento tal que presume a refutação posterior por novas evidências e possível alteração ou suplantação dessa convicção por algo racionalmente mais convincente, frente as novas evidências.

Já para refletirmos sobre a autoexperiência, vamos primeiro compreender o significado composto do termo. A palavra “experiência” vem do latim “experientĭa”, formada por três partículas, que são: "ex" (fora), "peri" (perímetro, limite) e "entia" (ação de conhecer, aprender ou conhecer). Literalmente pode ser compreendida como o ato de se aprender ou conhecer além das fronteiras, dos limites. Já o prefixo “auto” é um prefixo de origem grega que significa “a si próprio, a si mesmo".

Para melhor compreender o sentido que utilizaremos a expressão autoexperiência e como utiliza-la em nosso favor, adotarei a definição escrita por Oswaldo Vernet em seu livro intitulado Descrenciograma. Vernet (2020) postula que a autoexperiência é todo insumo construtivo a partir da qual todo princípio consciencial aprimora a si próprio, ou seja, toda autoexposição vivencial passível de afetar o microuniverso consciencial (nosso mundo interno) e abalar o sistema de convicções vigentes, seja confirmando-as, refutando-as ou modificando-as. É a adoção de uma abstração atualizável a partir da experiência vivida[3].

 

A armadilha da crença e os julgamentos morais

É comum atribuirmos um papel central as nossas crenças (junto as nossas convicções) ao modus operandi da nossa consciência. É aceitar, estar ou ficar convencido da veracidade, existência ou ocorrência de algo, admitindo como verdadeiro dentro da ótica atribuída. É dar crédito, admitir a possibilidade, é permitir a inserção da proposição hipotética no domínio da verdade.

A armadilha da crença está no universo das possibilidades a serem consideradas e admitidas ou não como verdade, pois são assimilados pela consciência injustificadamente (introjetado sem autorreflexão). Crer é a postura infantil de acolher ou rechaçar construtos sem o devido questionamento lógico e o indispensável respaldo comprobatório da autoexperiência[4]. Vale ressaltar que quando se fala em autoexperiência, é essencial ter em conta o potencial de afetar as autoconvicções. É com base na acumulação de resultados de autoexperiências que o microuniverso consciencial (nosso mundo interno) se constrói e enriquece, à medida que as autoconvicções se modificam e o senso de autocomprometimento com a evolução pessoal (e grupal) se aprofunda[5].

A crença exige como pagamento a liberdade de pensamento[6]. Nesse sentido, as nossas crenças qualificam - negativamente, sem liberdade de pensarmos por nós mesmos -, sem base alguma na autoexperiência, a forma pela qual interagimos, como a assimilação ocorre, a forma como nos inclinamos intuitivamente, e nossas posturas frente as novas realidades. Assim como nossas convicções, nossas crenças também definem a nossa moral – e, consequentemente, nossos julgamentos morais e comportamentos consequentes[7].

Nosso processo de julgamento moral é dividido em dois tempos diferentes[8]. O primeiro processo é intuitivo, automático e praticamente instantâneo, e está atrelado as emoções daquilo que estamos julgando (retomo aqui a origem da palavra crença – colocar o coração em algo, nossas emoções). A neurociência nos mostra que o cérebro avalia de maneira instantânea e constante. Julgamentos sociais dependem muito de flashes intuitivos rápidos. Nesse sentido, temos fortes pressentimentos sobre o que é certo e errado na hora de julgar alguma coisa. Podemos ser influenciados nesse primeiro processo por estados corporais (como cheiros, paladar, estados emocionais, etc.) e não é a razão que domina o campo do “certo e errado”, mas sim as emoções e a capacidade de senti-las. Aqui já podemos perceber a forte atuação das nossas crenças em nossos julgamentos morais, pois ao colocar nosso coração em algo sem o crivo da razão e da possibilidade de refutação, dependemos de defender intuitivamente e de forma automática nossas inclinações morais frente a possibilidade de aniquilação dessa crença[9].

O segundo processo é a razão. Esse processo é mais lento e ele entra em cena após nossa intuição fazer o primeiro julgamento sobre algo. O raciocínio tende a funcionar mais como um assessor de imprensa que justifica automaticamente qualquer posição assumida pela nossa intuição. Esta postura de assessor de imprensa está na forma como cérebro humano prefere funcionar frente a sua evolução como espécie e as necessidades de aperfeiçoamento do seu funcionamento social. Assim, estamos pré-dispostos a buscar colaboração e criar laços com as pessoas em um primeiro momento, ajustando nosso discurso (através da lógica, argumentos e falácias) para justificar nossa intuição[10]. Ou seja, após o julgamento intuitivo inicial baseado principalmente na crença sobre algo (que depositamos nosso coração), nosso cérebro tende a buscar formas lógicas de defender nossa posição ao invés de processar de forma crítica a proposição em questão para se construir um conhecimento novo ou modificar uma crença já estabelecida.

Mas nossos julgamentos morais não estão “presos” em nossas emoções intuitivas. O processo racional que o acompanha tem a possibilidade de reavaliar nossas posições a partir do que se é discutido e modificar nossas crenças e convicções – possibilitando criar uma nova forma de julgar intuitivamente no futuro algo que foi modificado em sua base. Esse não é um processo automático, principalmente quando não estamos habituados a dar espaço para este tipo de reflexão crítica mais profunda que tem o potencial de mudar nossas crenças e convicções (e, consequentemente, nosso comportamento)[11].

Entende-se que existem dois elementos importantes que podem ser incorporados à ação cotidiana para que o exercício do pensamento crítico tenha maior possibilidade de ocorrer[12]. O primeiro deles é a incorporação de estratégias que incentivem a metacognição (pensar sobre como estamos pensando); o segundo é a promoção da ideia de derrotabilidade.

Operações metacognitivas se relacionam diretamente com o pensamento crítico de, pelo menos, duas maneiras: uma delas é quando refletimos sobre nossos próprios processos de pensamento; a outra é quando monitoramos e deliberamos sobre a nossa rede de crenças. Assim, nos engajamos em metacognição quando fazemos a nós mesmos perguntas como “Estou pensando de maneira adequada sobre esta questão?” e “Como eu sei disso?”, e a partir delas buscamos meios de refinar nosso raciocínio.

Uma forma de exercitarmos a metacognição é refletindo sobre as circunstâncias ou condições em que uma conclusão que temos poderia ser mostrada falsa, ou carente de revisão. No início desse artigo tentei mostrar como eu fiz esse processo de ir do julgamento intuitivo frente aos muitos autores em minha busca por uma crença ao iniciar minha pesquisa sobre o pensamento crítico à reflexão metacognitiva sobre como eu compreendia essas questões. Essa é a essência da “derrotabilidade”[13]. Crenças são “derrotáveis” se elas estão sujeitas a revisão. Se uma crença não é derrotável, então ela não é passível de revisão.

Quando pensamos sobre o nosso próprio pensar – isto é, nos envolvemos em metacognição – e consideramos condições que fariam com que tivéssemos que recalibrar nossas crenças sobre um dado assunto, estamos criando condições de exercer o pensamento crítico de forma apropriada, agindo para que nossos vieses cognitivos possam ter impactos menores do que se simplesmente nos entregássemos às primeiras impressões que temos sobre qualquer tópico em consideração[14].

O mais sensato a fazer para dar uma resposta minimamente adequada a qualquer questão é criar o hábito de buscar artigos e livros relevantes, consultar especialistas, verificar se há um consenso na área, analisar as razões envolvidas e, então, calibrar o seu ponto de vista de acordo com essa investigação – isto é pensar criticamente.

Essa atitude metacognitiva nos proporciona ampliar e desenvolver nossa postura omniquestionadora. Pensar criticamente requer muita atenção e função cerebral e, assim como qualquer outra habilidade humana, é possível de ser treinada e aperfeiçoada. Diferentes campos de estudo podem exigir diferentes tipos de pensamento crítico. O pensamento crítico fornece mais ângulos e perspectivas sobre o mesmo material.

E você, leitor ou leitora, consegue avaliar a influência das suas crenças em sua vida? Considere experimentar e não admita nada sem questionar e refletir, nem mesmo o que lhe informei aqui neste artigo. Não se contente com comentários. Busque as fontes, cheque as evidências e reflita sobre como você está fazendo esse processo. Comprove tudo pela autoexperiência.



[1][2][3][4][5][6] VERNET, O. Descrenciograma: fundamentação e teática. 1. ed. Foz do Iguaçu: Editares, 2020.

[7][12][13][14] GUZZO, G. B.; LIMA, V. M. R. O exercício do pensamento crítico em face dos vieses cognitivos. Anais do CIDU, Brasil, n. X, ed. 1, 2018.

[8][9][10][11] HAIDT, J. A mente moralista: por que pessoas boas são segregadas por política e religião. 1. ed. Rio de Janeiro: Alta Books, 2020.

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